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Associação Nômade de Psicologia Indígena e Quilombola de Pindorama

ASSOCIAÇÃO NÔMADE DE PSICOLOGIA INDÍGENA E QUILOMBOLA DE PINDORAMA (ANPIQP)

CARTA MANIFESTO

Somos uma associação de psicólogas(os) que se orientam pelos fundamentos socioculturais indígenas e quilombolas na prática psicológica, reconhecendo a importância da espiritualidade e da ancestralidade, enquanto dimensões fundamentais na constituição da pessoa, devendo ser levadas em consideração na atuação da(o) psicóloga(o).
A partir da necessidade de se fazer Psicologia, tanto em seus aspectos práticos quanto teóricos, de maneira sensível às especificidades das tradições indígenas e quilombolas deste território, a Associação Nômade de Psicologia Indígena e Quilombola de Pindorama (ANPIQP) nasce justamente no contexto da consulta pública do CREPOP à categoria sobre as Referências Técnicas para atuação de psicólogas(os) junto aos Povos Indígenas. Trata-se de um documento muito relevante que vem a público para atender a uma demanda de um processo de inclusão étnica nos fazeres da Psicologia Brasileira. Esperamos também que muito em breve venha a público as Referências Técnicas para atuação de psicólogas(os) junto aos Quilombolas, documento tão necessário e urgente à categoria e a essa população.
Com relação ao documento que passou por consulta pública, relativo às Referências Técnicas para atuação de psicólogas(os) junto aos Povos Indígenas, destacamos a necessidade de enfatizar a questão da espiritualidade e ancestralidade dos povos indígenas, ainda tão questionada e alvo de preconceitos, bem como a questão da identidade indígena, em todos os contextos, que também é alvo de questionamentos quando da nossa presença nos contextos urbanos, acadêmicos e profissionais. Entendemos que a ciência ainda não está pronta o suficiente para apoiar os povos indígenas. Há muito a construir na direção de respeitar os corpos, espíritos e territórios dos povos originários.
Ressaltamos a necessidade de que os indígenas participem ativamente da Política Pública de Saúde e das demais políticas públicas (Educação, Assistência Social, Território, Moradia etc.), como sujeitos de direitos e conhecimentos importantes, que levam em conta corpo e temporalidade ancestrais, envolvimento com o território e com todos os seres que nele habitam. No âmbito da Política Pública de Saúde, é fundamental a contratação de psicóloga(o)s indígenas para atuarem em suas comunidades, questionando a medicalização generalizada, a qual ignora a espiritualidade e a ancestralidade como caminhos em direção ao modo de viver tradicional com saúde integral.
A sociedade continua vendo os indígenas, predominantemente, de maneira romantizada e idealizada. No entanto, nossos rios estão sendo envenenados, nossas aldeias e florestas estão sendo queimadas, nossos parentes estão sendo mortos pelo garimpo, pelo agrohidronegócio, pelos mega-projetos a serviço do capital. Afirmamos a necessidade de que a Psicologia atente-se para o indígena em sua integralidade, refletindo sobre seu papel na sociedade, explicitando para quem a Psicologia dirige seus conhecimentos e atuação profissional.
É importantíssimo que a Psicologia aproxime-se dos povos indígenas. Todavia, tal aproximação deve ter como objetivo apoiá-los em sua causa ao invés de tutelá-los, como historicamente tem sido realizado por práticas coloniais e neocoloniais. Pensamos que a Psicologia deve atuar para contribuir com a afirmação étnica dos povos originários neste território de Pindorama.
Reconhecemos que o documento do CREPOP é um marco de construção inclusiva, pelo fato de haver três indígenas escrevendo estas referências técnicas. É o olhar indígena que está sendo veiculado no documento.
A ANPIQP é composta por psicóloga(o)s indígenas e quilombolas, bem como por psicólogas(o)s que atuam junto aos povos indígenas e quilombolas, além de conselheiros(as), os quais são anciã(o)s e guardiã(õe)s das sabedorias milenares indígenas e/ou afro-diaspóricas, tendo muito a contribuir com uma Psicologia diferenciada na perspectiva étnico-cultural e étnico-racial. Consideramos que a formação em Psicologia deve levar em conta e fomentar o envolvimento de estudantes com esses conhecimentos e sabedorias.
Congregamos psicólogas(os) de diversas regiões do território de Pindorama – nome dado por seus povos originários ao território que hoje, em virtude dos processos de colonização, é convencionalmente chamado de Brasil.
Reconhecemo-nos enquanto uma associação nômade de psicólogas(os), fundamentados em concepções indígenas e/ou afro-diaspóricas de território, que entende que a T/terra é uma só e deve ser para todas(os), não podendo ser objetificada enquanto uma propriedade a ser esquadrinhada e recortada em fronteiras de Estado-nação, recusando assim as usuais categorias que reproduzem valores coloniais em suas concepções de territorialidade.
Uma associação em Psicologia que se reconhece nômade, além de assumir um posicionamento alternativo ao conceito de Estado-nação, abre a possibilidade de manifestar também a importância da liberdade de transitar entre os diversos territórios, inclusive de conhecimentos, expressos na transdisciplinaridade da formação de psicólogas(os) e marcando a presença das tradições de conhecimentos indígenas e quilombolas em Psicologia.
Finalmente, consideramos de fundamental relevância, em um momento de ataque aos direitos indígenas, que a Psicologia, por meio do Sistema Conselhos, dê visibilidade e acompanhamento aos efeitos de seus posicionamentos públicos contra o Marco Temporal (PL490) e ofereça apoio à realização da Marcha das Mulheres Indígenas e do Acampamento Terra Livre, importantes momentos de reunião e fortalecimento das lutas dos povos indígenas em sua diversidade.
Buscando cultivar o Bem Viver e o Ubuntu de toda(o)s nesta T/terra, que é uma só e com a qual estamos mutuamente vinculados em nossa co-existência, entendemos que a Psicologia tem muito a aprender com a auto-organização e as tradições indígenas e quilombolas.

Pindorama, 10 de dezembro de 2021.