Rodas de conversa no contexto da UFG em parceria com a Rede Indígena: novembro de 2024
Em continuidade ao projeto “Produção de espaços de diálogo sobre saúde e bem-viver dos povos indígenas”, fruto da parceria entre a Rede Indígena e a UFG, foram realizadas a segunda e a terceira rodas de conversa na cidade de Goiás, nos dias 21 e 22 de novembro de 2024. Conforme explicado em matérias anteriores disponíveis no portal da Rede Indígena , a iniciativa visa promover debates sobre saúde e bem-viver entre estudantes indígenas, os serviços de saúde e a comunidade universitária da UFG. A partir da primeira roda de conversa do ciclo, em 27 de junho de 2024, foi possível introduzir o projeto e planejar, nos meses posteriores, os próximos encontros, tendo em vista a agenda e temporalidade dos participantes.
No dia 21 de novembro, a roda de conversa ocorreu no horário da aula cedido por Hélio Simplicio Rodrigues Monteiro — professor de Etnomatemática do curso Educação no Campo, e também colaborador e principal articulador do projeto — e foi mediada pela psicóloga Milena Nunes. Participaram 23 pessoas de três etnias, dentre as quais estudantes da Universidade, alunos do Ensino Médio e Fundamental do Colégio Professor Alcides Jubé, familiares, além de Cristóvão Tsoropré, liderança do povo Awe Aptabi e professor. Após um lanche de acolhimento, o encontro iniciou-se com uma partilha e uma escuta dos sentimentos de quem estava presente, sendo essa conversa relacionada principalmente ao curso e ao território. Posteriormente, foi feita uma reflexão conjunta sobre o que se entende por saúde, como se cuida da comunidade e como esta se relaciona com a rede de saúde na cidade. Nesse primeiro contato, foram coletados relatos que seriam retomados e aprofundados no dia seguinte, em uma outra roda de conversa.
No dia 22 de novembro, no período matutino, a conversa continuou, com 34 participantes, incluindo também profissionais da Secretaria Municipal de Saúde da cidade de Goiás, da UBS de referência para pessoas indígenas, do CAPS e da gestão municipal. A partir do encontro entre os estudantes indígenas e os profissionais de saúde, a atividade buscou promover a partilha de questões relacionadas à saúde e ao bem-viver, além da elaboração de encaminhamentos de ações para uma convivência e uma (co)existência melhores. Para isso, os participantes foram divididos em quatro grupos, dois compostos por pessoas indígenas, e dois por profissionais da saúde, para que fossem discutidas duas questões norteadoras:
Quais as dúvidas em relação à saúde indígena quando se fala em oferta ou busca por cuidados na cidade?
Quais as motivações e sugestões para se construir esses cuidados?
Os estudantes indígenas trouxeram como pautas as dificuldades relacionadas à língua; a desconfiança com um serviço onde não se conheça as pessoas e não haja garantia de respeito à cultura e à temporalidade próprios da aldeia; dúvidas sobre a regularização do cartão SUS; a necessidade de um tratamento diferenciado para saúde mental e saúde da mulher, entre outras. Já os profissionais de saúde relataram dificuldades com a língua, com a prevenção em odontologia e com a realização de visitas domiciliares, o que leva à falta de adesão das mulheres aos grupos propostos; também manifestaram dúvidas sobre a aceitação do uso de medicações, vacinas, teste do pezinho e cuidados em saúde mental do CAPS; além de questões sobre a existência de um controle familiar e de prevenção a ISTs.
A partir dessa partilha, os estudantes indígenas propuseram uma série de encaminhamentos, entre os quais: uma formação acerca dos povos indígenas para aprofundar os conhecimentos sobre sua realidade; a realização de um evento cultural com os estudantes indígenas em um ambiente natural; a contratação de profissionais de saúde indígenas de referência e tradutores; a possibilidade de tratamentos com plantas e remédios tradicionais e da criação de uma farmácia indígena; a criação de vínculos com esses profissionais e um meio de comunicação mais acessível, considerando as dificuldades de deslocamento; e a identificação da Unidade de Saúde como um local de referência para pessoas indígenas, por meio de grafismos ou de uma mensagem de boas-vindas direcionados; entre outros. Por sua vez, os profissionais de saúde, expressaram o desejo de conhecer mais as culturas e fortalecer os vínculos, além de pedirem para que as pessoas indígenas que aceitam as medicações e cuidados oferecidos conversem com as outras, não necessariamente para que estas aceitem o que é oferecido pela equipe de saúde, mas para que seja possível criar uma rede coletiva de cuidado que atenda às necessidades das pessoas indígenas e respeite suas culturas.
Sendo assim, por meio do encontro e do diálogo que têm potencial transformador, o projeto busca construir relações e serviços que contemplem as formas indígenas de compreender e realizar/praticar saúde e bem-viver. Trata-se de partilhar, escutar e imaginar em conjunto para que seja possível recuperar, criar e reinventar vivências de respeito entre povos e naturezas. Não se pretende a homogeneização de uma única prática de bem-viver em detrimento de outras, mas sim a possibilidade de comunicações e combinações que não se anulem as diversas formas de se fazer saúde. Sendo a saúde um construto coletivo, e não apenas individual, que abrange aspectos físicos, mentais, espirituais e sociais — usando uma divisão que talvez faça mais sentido para a compreensão ocidental —, tais cuidados são fundamentais para a existência indígena dentro e fora das universidades.