Rede de Atenção à Pessoa Indígena Instituto de Psicologia Departamento de Psicologia Experimental
FacebookInstagram
02/03/2026

Diálogos sobre a educação indígena e formas de avaliação do bem-estar comunitário

Danilo Silva Guimarães, Luciano Sewaybricker, Paula Rasia Lira (Universidade de São Paulo) e Associação Indígena Takuari

Tekó jepou. Visita técnica ao Tekoá Takuari. Foto: Paula Rasia Lira.

Tekó jepou. Visita técnica ao Tekoá Takuari. Foto: Paula Rasia Lira.

Entre os dias 15 e 17 de fevereiro de 2026 integrantes da Rede Indígena da USP, Danilo Silva Guimarães (docente do IPUSP), Paula Rasia Lira (Especialista em Laboratório) e Luciano Sewaybricker (Pós-doutorando) realizaram uma visita ao Tekoá Takuari. A aldeia Mbyá-Guarani está localizada na região do Vale do Ribeira, no município de Eldorado/SP, e atualmente conta com cerca de 18 famílias residindo no local. Dois estudantes de Ensino Médio foram contemplados com bolsas de Pré-IC, que conta com supervisão da professora Luiza Pará Mirim da Escola Estadual Indígena Aldeia Taquari.

A visita teve o propósito de dialogar com os bolsistas de Pré-Iniciação Científica e a comunidade escolar sobre o processo de construção dos relatórios semestrais das bolsas. Outro objetivo esteve ligado à apresentação e consulta à comunidade a respeito do interesse de participar de um projeto voltado à coprodução de um instrumento de avaliação do bem-estar na comunidade indígena.

A pesquisa de Pré-IC em andamento recebeu o nome Yvy potyra: cultivar o território e cuidar das pessoas. Yvy potyra é uma expressão antiga do Mbyá Guarani com o significado de flor da terra. Quando uma criança nasce, até a adolescência, há um processo de desabrochar, como uma flor. 

O projeto é um desdobramento da parceria entre a Rede Indígena do IPUSP e o Núcleo de Apoio à Cultura e Extensão em Educação e Conservação Ambiental (NACE PTECA), vinculado à ESALQ-USP para realização de ações de cultura e extensão universitária no âmbito da soberania alimentar no Tekoá Takuari. A parceria se consolidou com a realização do projeto ‘Rede de atenção à pessoa indígena: concepções, práticas e ambientes para a saúde e o bem-viver’, que contou com apoio da FAPESP (processo número 22/04906-3) e do CNPq (processo número: 306149/2023-0)

O objetivo da Pré-IC é apoiar a comunidade na produção dos registros que documentam a parceria, respeitando os entendimentos e saberes sobre a temporalidade (Ara há’e teko) e a territorialidade (Yvyrupá) na tradição Mbyá-Guarani. Para tanto, é relevante o contínuo diálogo na comunidade indígena sobre o modo de vida (Tekó) e os ciclos Ara Pyau e Ara Ymã.

Com a chegada da equipe houve um momento de recepção na escola da aldeia, onde muitas lideranças e jovens estavam e tivemos a oportunidade de conversar sobre diversos assuntos. Foi preparada e servida uma refeição, e houve organização da acomodação dos visitantes na escola. No período da noite pudemos realizar uma vivência comunitária no Opy

Os diálogos focalizados na preparação dos relatórios de Pré-IC tiveram início no dia seguinte, no período da manhã. Começou com uma breve apresentação da equipe da Rede Indígena e manifestação das lideranças e professores. Na ocasião, a especialista em laboratório Paula Rasia Lira apresentou suas atividades no LEANPSI (Laboratório de Estudos e Pesquisas em Avaliação Psicológica e Neuropsicológica) e seu projeto de pós-doutorado intitulado ‘Educação Especial e infâncias indígenas: mapeando uma década de matrículas no Censo Escolar (2015-2024)’. A apresentação gerou reflexões importantes por parte dos educadores indígenas presentes, que compartilharam percepções sobre o aumento de deficiências e problemas de saúde entre as crianças da comunidade, associando esse fenômeno a fatores como o convívio com a sociedade não indígena, a dificuldade de manter a alimentação tradicional e as disputas territoriais. Os educadores enfatizaram as diferenças entre a educação escolar e a educação tradicional Guarani, apontando a necessidade de diálogos contínuos que aproximem esses conhecimentos paralelos e garantam o direito a uma educação verdadeiramente diferenciada.

Em seguida houve a escuta dos estudantes a respeito de sua experiência ao visitarem a Universidade de São Paulo e o Museu das Culturas Indígenas durante o I Encontro Internacional de Psicologia Indígena, que organizamos entre os dias 20 a 24 de outubro de 2025 (cf. https://redeindigena.ip.usp.br/encontro-internacional-psicologia-indigena-saude-e-bem-viver/). Depois passamos para a releitura de pontos importantes do Edital PIBIC 2025/2026 (https://prpi.usp.br/wp-content/uploads/sites/1239/2025/05/Edital-PIBIC-2025_2026.pdf). Finalmente, chegamos à estrutura do relatório dos bolsistas, ao resumo do projeto contemplado com as duas bolsas e aos  demais itens.

Com relação ao projeto de Pré-IC foi possível dialogar com a comunidade escolar sobre o distanciamento entre a escola que querem e a compreensão imposta por agentes da gestão, dado que se trata de uma escola estadual indígena. Diante de seu direito a uma educação específica, a comunidade entende que muitas vezes a imposição do tempo em sala de aula tem atrapalhado o tempo de resguardo dos estudantes. A agenda escolar tem forçado o tempo de realização das cerimônias tradicionais a acontecerem apenas nos fins de semana. 

O necessário respeito à autonomia indígena e seus momentos de cuidados tradicionais também impactam o interesse dos jovens para estudar na universidade. Dentre as questões mapeadas estavam 1) a dificuldade da distância e como viabilizar a manutenção do convívio dos universitários com a família e o Tekoá; 2) a importância de que a universidade mantenha espaços específicos de acolhimento dos estudantes indígenas; 3) o respeito à alimentação indígena específica; e 4) a atenção às orientações de cada etnia sobre os cuidados, que incluem alimentação, resguardos, luto etc. 

Diante da apresentação dos problemas, a comunidade refletiu que é necessária a construção de diálogos contínuos para o entendimento da universidade a respeito das necessidades específicas de cada pessoa, ou seja, uma atenção singularizada às pessoas indígenas e suas diversidades interculturais. Com isso, é urgente efetivar a abertura de vagas para os estudantes indígenas dos territórios interessados nos diferentes cursos, sem prejuízo dos indígenas que já vivem no contexto urbano. Reconhecendo que o interesse da formação acadêmica indígena se volta para o fortalecimento de suas comunidades e não para interesses econômicos de geração de lucro individual.

Quanto ao desenvolvimento da pesquisa, foi possível notar a densidade do processo formativo dos jovens na comunidade, muitas vezes não considerado na formação escolar. Há grande engajamento nas atividades diárias que acontecem no Opy, participação nas cerimônias e em trabalhos coletivos de cuidado com o espaço da comunidade como o plantio tradicional, partilha de alimentos, a participação em encontros de lideranças, nos encontros de jovens e de mulheres indígenas. Junto com isso, houve preparação para o acolhimento de pessoas da universidade nas visitas técnicas e a organização da documentação das atividades.

Após a atividade produtiva do relatório de Pré-IC, passamos ao diálogo sobre a co-produção de medida de bem-estar com a comunidade. Trata-se de um projeto em parceria com a Rede Indígena da USP, que visa compartilhar com a aldeia como os Juruá desenvolvem um instrumento de avaliação e, a partir disso, construir juntos um instrumento que seja do jeito Guarani e próprio da aldeia de Takuari. A ideia de fomentar diálogos sobre a noção de Tekó Porã foi bem recebida pelas lideranças presentes, que propuseram ampliar o escopo do projeto com a inclusão de Xeramõi e Xejary kuery (anciões e anciãs) de outros Tekoá como especialistas e orientadores do processo. Foi sugerida, ainda, a ampliação de parceiros potenciais financiadores que pudessem articular e expandir as modalidades de encontros sobre o tema.

Ao final do segundo dia de visita, jantamos e participamos de mais uma vivência no Opy buscando a força espiritual e concentração necessária para o êxito das iniciativas já em curso e das novidades propostas. A equipe se despediu da aldeia no dia seguinte pela manhã.

A atividade contou com apoio do CNPq (Processo número: 306149/2023-0) e da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da Universidade de São Paulo direcionado ao serviço Rede de Atenção à Pessoa Indígena.